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Edição 29

A coluna FALANDO DE MODA começou no Rádio no ano de 1996. Anos depois, ressurge em versão eletrônica. Quando foi lançada, ainda estávamos no século 20. A nova versão, a eletrônica, chegou em pleno século 21. Com a passagem dos séculos, observamos mudanças na moda, no comportamento, na cultura e assim por diante. Para quem diz que moda é assunto de mulherzinha, aqui vai um recado: esta edição da coluna é totalmente dedicada aos homens. A coluna desvenda a alma masculina do século 21. Há poucos dias, em um restaurante, um homem me perguntou se a figura em minhas unhas era um adesivo ou se havia sido pintada a mão. O homem do século 21 se interessa por unhas artísticas, quem diria, e não apenas se interessa, como também faz as unhas, usa maquiagem e tira a sobrancelha. E qual é o problema?? O psicanalista Luiz Alberto Py  assegura que não existe problema algum em um homem usar maquiagem, por exemplo. Segundo doutor Py, a maquiagem masculina “é uma forma subliminar de denunciar o tradicionalismo”. Ainda nesta edição, as considerações do psiquiatra sobre o homem metrossexual.

David Metrossexual Beckham – A marca Gillette escolheu o jogador David Beckham para sua campanha publicitária. A marca lembra o quê? Os homens, é claro, aquele barbeado perfeito, sedutor, coisa de homem com H maiúsculo. A empresa diz que escolheu o jogador por considerá-lo elegante, um símbolo de homem que se preocupa com os cuidados pessoais. Por sua reconhecida elegância, David Beckham é considerado o símbolo do homem metrossexual, ou seja o homem que se maquia, tira a sobrancelha, pinta as unhas e veste grifes caríssimas.

Dos campos de futebol para as páginas dos jornais e revistas. Beckham de jogador passou a estrela. Milene Domingues, ex de Ronaldinho, conhece David Beckham pessoalmente. Há uma semana, participou do programa de Adriane Galisteu e, quando questionada pela apresentadora se o jogador ganha no quesito beleza ou na habilidade em campo, Milene hesitou. Disse que beleza e habilidade andam juntas na vida no jogador. E os homens, o que será que pensam do metrossexual mais famoso do planeta? Começamos com a turma do ataque. Para estes dois homens a seguir o homem metrossexual é inconcebível.
O primeiro da lista é Rafael Teixeira, um oficial da Marinha, solteiro, 24 anos de idade.  Para Rafael, na cultura latino-americana o homem que faz sucesso é “o homem bronco, rude”. É ele que agrada as mulheres. Vê o metrossexual como “afeminado”, no entanto diz que David Beckham não passa uma imagem gay. “O homem deve ser rude para acentuar as diferenças entre homem e mulher”, frisa o militar que está de casamento marcado. No Dia do Noivo, nada de banheira de hidromassagem, depilação, pé e mão, etc. Rafael revela que o único preparativo para a cerimônia em relação à beleza será um corte de cabelo.
Alexandre Medeiros de Sousa, bibliotecário, 28 anos, solteiro, deixou a colunista mais saudosista do que ela já andava na última edição. Alexandre é da época do creme de barbear Bozzano  (confesso que entrei na farmácia esses dias para (re) ver esse ícone da beleza masculina), do talco Baruel, do shampoo Denorex, da pomada Minâncora e do Polvilho Granado. Após essa lista, conclui-se que Alexandre é da turma do ataque. Para ele, o homem metrossexual é “um ser híbrido”. O bibliotecário diz que perguntas como “onde você faz sua limpeza de pele” ou “ qual o número da tintura que você usa” não são, como ele define, “papo de homem”. Alexandre revela que não se espantaria se soubesse que David Beckham já teve experiências com outros homens e completa: “Mulher gosta que o homem seja MASCULINO, homem com cara de homem, tipo personagem do filme Gladiador”.  Por fim, compara os homens que fazem luzes nos cabelos às cotias do Campo de Santana (lugar histórico do Rio). A regra número um de Alexandre é: “o vestuário do homem é a praticidade”.
No meio de campo, ou seja no grupo dos que nem atacam nem defendem o metrossexual, estão um italiano, um brasileiro, descendente de italianos e um francês. Dario Corbetta, tem 48 anos, é casado, nasceu em Milão e atualmente mora no Rio, onde ministra aulas de italiano. Do alto de seus 1,91 m de altura, diz que o homem metrossexual não é necessariamente gay. “Pode ser como pode não ser”. Para ele, o metrossexual tem um quê de narcisista. Segundo o professor, na Roma dos dias atuais, ninguém atiraria pedras no homem metrossexual. Todavia, não usaria este look: maquiagem e unhas pintadas. O italiano diz ainda que os homens de hoje estão amedrontados com a mulher do século 21, chamada por ele de “devoradora de homens”.
Vicente Dattoli é jornalista, tem 40 anos e é solteiro. Diz que acha exagerado “isso de maquiar-se”, mas não considera enrustidos os homens que fazem uso da maquiagem. Adoraria vestir-se melhor, confessa que se pudesse usaria apenas roupas de grife. Segundo ele, “têm qualidade superior e te deixam diferente”. Pintar as unhas, jamais, porém admira unhas bem cuidadas, já que está abandonando o vício de roer as próprias unhas.

Apresento-lhes Florian Béthuleau, um dos colaboradores da coluna, francês, 22 anos, solteiro, estudante de engenharia. Florian não vê relação entre o metrossexualismo e as tendências sexuais, como, por exemplo, o homossexualismo ou o bissexualismo. Sobre a maquiagem masculina, conta que ninguém, de seu círculo de amizades, costuma utilizá-la. Todavia, a indústria de cosméticos cresce, a cada dia, na França, fazendo com que ele próprio, Florian, tenha aderido aos cremes. Aconselha para os homens os cremes das marcas Neutrogena e Roc.

Encabeçando a defesa, isto é, o grupo dos que defendem o metrossexual, está Diego Kullmann, um estudante de Direito, 24 anos, solteiro. “O homem está perdendo sua identidade masculina devido à independência feminina conquistada no século 20, por isso tem que recorrer até à maquiagem nos dias de hoje para conquistar as mulheres”, diz o estudante. “Homem que é homem pode, sim, usar maquiagem e recorre ao truque feminino para conquistar as próprias mulheres”. Quando a David Beckham, Diego acredita que o visual do jogador é produto de marketing para ganhar dinheiro e que o look do jogador agrada a homens e mulheres. Por fim, profetiza: “O comportamento feminino de hoje está levando à extinção da humanidade”.
Outro defensor do homem metrossexual é Francisco Corral Sánchez-Cabezudo, espanhol residente no Rio de Janeiro, 51 anos, casado. Francisco é diretor do Instituto Cervantes do Rio e lembra que não é a primeira vez na História em que os homens se maquiam. “Em outros séculos, já estiveram na moda homens com sobrancelhas pintadas, perucas, pó de arroz, e, inclusive, saias”. O espanhol não crê que o metrossexualismo tenha relação direta com o homossexualismo. Diz “tratar-se de uma moda, como outra qualquer”. Entre os “metro”, Francisco imagina que “existam homossexuais e heterossexuais em proporção similar à de qualquer outra tribo urbana”. Apesar de nascido em um país onde os homem têm fama de macho man, o espanhol anuncia: “O modelo do homem macho que se complementa com uma mulher submissa tem cada vez menos espaço”.

E agora, Doutor? – Após passear pelos times dos defensores, dos atacantes e dos meios-de campo, digamos assim, a colunista foi pesquisar nas entranhas da mente se o metrossexual teria, afinal, um quê de gay enrustido, ou talvez algum desvio sexual. O psicanalista Luiz Alberto Py defende com unhas e dentes o homem metrossexual. Conta ele que há cerca de 20 anos foi à uma festa e ao chegar deparou-se com o aniversariante, o deputado Carlos Minc, maquiado. E qual é o problema?? Segundo o médico, o homem que se maquia faz uma denúncia ao caretismo, trata-se de uma ruptura do formalismo, explica o psicanalista. O metrossexual, segundo o médico, pergunta a si próprio: “Se as mulheres podem, por que eu não posso?” Doutor Py explica ainda que o ato do homem se maquiar não tem nada a ver com homossexualismo nem com desvio sexual, seria apenas uma brincadeira. Para as mulheres que se queixam de que falta homem na praça, Doutor Py manda um recado: “As mulheres estão inacessíveis, agressivas, em suma as mulheres estão malucas”. O psicanalista coloca seu e-mail à disposição para esclarecimentos sobre o homem que se maquia, tira a sobrancelha, pinta as unhas e é macho, sim, senhor. Para entender melhor como pensa e age o homem metrossexual, pergunte ao doutor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

A sexóloga da felicidade – Ela está com tudo e não está prosa. Casada pela terceira vez com um homem 20 anos mais jovem, a professora foi escolhida para representar as mulheres. Única mulher a ter voz nesta edição, a sexóloga Helena Theodoro é também uma exímia defensora do homem metrossexual, assim como o psiquiatra Luiz Alberto Py. Helena começa nossa entrevista analisando o prazer, uhlala! A sexóloga diz que nossa cultura tem muito preconceito em relação ao prazer. “As pessoas não são aparência, são essência”, diz Helena. Com isso, se o metrossexual não estiver prejudicando ninguém, vale tudo, explica a sexóloga. O metrossexualismo não tem nada a ver com sexo, “cada um de nós é único”, na visão de Helena, que além de professora e sexóloga é jurada do prêmio Estandarte de Ouro, prêmio concedido pelo jornal O Globo aos melhores do Carnaval carioca. Citando o lema da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, Helena diz que o metrossexual “não é nem melhor nem pior, apenas diferente”. Sobre a mulher do século 21, a sexóloga diz que é uma “mulher que sofre da síndrome de Cinderela, que quer encontrar alguém que resolva seus problemas, por isso fica dizendo que falta homem na praça”.  Defensora do metrossexual a quem ela chama de “vaidoso”, Helena apóia também o casamento. Após três uniões, avisa a metrossexuais, homossexuais e Cinderelas do século 21 que “partilhar a vida com outras pessoas é a melhor maneira de viver a vida”. Na próxima edição, a solução para o seu problema: você vai saber onde está chovendo homem. Antecipo que é do outro lado do mundo. O mapa do tesouro na semana que vem. Tchau e até lá!

Colaboração:
Maria Contreras e Paula Leite (de Brasília)
Florian Béthuleau e Stephane Serrier (da França)
Rosa Castellano (da Itália)
Ana Nakamura (do Japão)

 

 

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Sobre Flávia

flávia-new siteFlávia Vasconcellos já viu reis e rainhas, é jornalista, editora-chefe e colunista do site Falando de Moda.
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